A produção agrícola moderna enfrenta desafios constantes relacionados à ocorrência de doenças que afetam culturas de grande importância econômica. Entre essas enfermidades, o mofo-branco se destaca como uma das mais problemáticas para sistemas produtivos que envolvem culturas como soja, feijão e algodão. Essa doença é causada pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum, patógeno com ampla distribuição geográfica e capacidade de infectar centenas de espécies de plantas cultivadas e espontâneas.
Além de causar danos diretos à produtividade, o mofo-branco também representa um problema de manejo complexo, uma vez que seu agente causal apresenta estruturas de sobrevivência extremamente resistentes, denominadas escleródios, capazes de permanecer viáveis no solo por vários anos. Essa característica dificulta o controle da doença e torna necessárias estratégias integradas que envolvam manejo cultural, químico e biológico.
Nesse contexto, pesquisas recentes têm apontado para o potencial do controle biológico como alternativa sustentável no manejo do mofo-branco. Estudos conduzidos por cientistas brasileiros identificaram espécies de fungos presentes naturalmente no solo que demonstram elevada capacidade de inibir o desenvolvimento do patógeno. Os resultados dessas investigações indicam uma possível redução da dependência de fungicidas químicos e apontam para novas estratégias de manejo mais sustentáveis e eficientes no controle dessa doença.
O mofo-branco e seus impactos na agricultura
O mofo-branco é uma doença que afeta diversas culturas agrícolas e pode causar prejuízos significativos à produção. O fungo Sclerotinia sclerotiorum possui uma ampla gama de hospedeiros e pode infectar mais de 400 espécies de plantas, incluindo culturas de grande importância econômica como soja, feijão, algodão, girassol e diversas hortaliças.
A doença se desenvolve principalmente em condições de elevada umidade e temperaturas moderadas, fatores que favorecem a germinação dos escleródios presentes no solo. Essas estruturas originam corpos frutíferos capazes de liberar esporos que infectam tecidos vegetais, iniciando o processo de colonização da planta. Uma vez estabelecido, o patógeno provoca lesões nos tecidos vegetais, que evoluem rapidamente para áreas necrosadas recobertas por um micélio branco característico, responsável pelo nome popular da doença.
Além dos danos diretos às plantas, o mofo-branco compromete o rendimento das lavouras e pode causar perdas expressivas na produtividade, especialmente em áreas com histórico da doença. Em casos severos, as perdas podem atingir níveis elevados, tornando a doença uma das principais preocupações fitossanitárias em sistemas agrícolas intensivos.
Outro fator que contribui para a dificuldade no manejo do mofo-branco é a capacidade de sobrevivência do patógeno no solo. Os escleródios funcionam como estruturas de resistência e podem permanecer viáveis por longos períodos, aguardando condições ambientais favoráveis para reiniciar o ciclo da doença. Essa característica torna o controle da enfermidade particularmente complexo e exige estratégias de manejo que atuem diretamente no banco de inóculo presente no solo.
Métodos tradicionais de controle da doença
Historicamente, o manejo do mofo-branco tem sido realizado principalmente por meio do uso de fungicidas químicos. Esses produtos são aplicados com o objetivo de reduzir a infecção e a disseminação do patógeno nas lavouras. Embora essa estratégia possa apresentar eficiência em determinadas situações, o controle químico isolado apresenta diversas limitações.
Um dos principais desafios relacionados ao uso contínuo de fungicidas é o elevado custo associado às aplicações, especialmente em culturas de grande extensão como a soja. Além disso, o uso intensivo desses produtos pode causar impactos ambientais e favorecer o desenvolvimento de populações de patógenos resistentes às moléculas utilizadas.
Outro aspecto relevante é que os fungicidas geralmente atuam sobre o patógeno presente na planta ou em estágios específicos do ciclo da doença, mas possuem eficácia limitada sobre os escleródios presentes no solo. Dessa forma, mesmo após o controle aparente da doença em uma safra, o patógeno pode permanecer no ambiente e causar novas infecções nas safras seguintes.
Por essas razões, pesquisadores e especialistas em fitopatologia têm buscado alternativas complementares ao controle químico, com foco em estratégias que atuem diretamente no ambiente do solo e reduzam a sobrevivência do patógeno.
Controle biológico como alternativa sustentável
O controle biológico consiste no uso de organismos vivos capazes de reduzir ou suprimir populações de patógenos que causam doenças em plantas. No caso do mofo-branco, diversos microrganismos do solo têm sido estudados devido à sua capacidade de antagonizar o fungo causador da doença.
Entre os microrganismos mais promissores estão espécies do gênero Trichoderma, um grupo de fungos amplamente distribuído em solos agrícolas e conhecido por sua capacidade de competir com outros microrganismos e parasitar patógenos vegetais. Esses fungos possuem diversos mecanismos de ação que contribuem para o controle de doenças, incluindo competição por nutrientes e espaço, produção de metabólitos antifúngicos e parasitismo direto sobre outros fungos.
Além disso, algumas espécies de Trichoderma também são capazes de estimular mecanismos de defesa nas plantas, aumentando a resistência natural das culturas contra patógenos. Essa característica torna esses microrganismos particularmente interessantes para programas de manejo integrado de doenças.
Nos últimos anos, o desenvolvimento de bioinsumos agrícolas baseados em microrganismos benéficos têm ganhado destaque em diferentes regiões do mundo. Esse crescimento é impulsionado pela demanda por práticas agrícolas mais sustentáveis e pela busca por alternativas que reduzam os impactos ambientais associados ao uso de insumos químicos.
Descoberta de fungos capazes de eliminar o mofo-branco
Uma pesquisa recente conduzida por cientistas brasileiros identificou espécies de fungos do solo com elevada capacidade de controlar o agente causal do mofo-branco. No estudo, pesquisadores avaliaram diferentes microrganismos presentes em solos agrícolas e identificaram espécies do gênero Trichoderma capazes de eliminar completamente os escleródios de Sclerotinia sclerotiorum em condições laboratoriais.
Entre as espécies avaliadas, destacaram-se Trichoderma yunnanense e Trichoderma dorotheae, que apresentaram forte capacidade de inibir a germinação das estruturas de sobrevivência do patógeno. Em alguns testes, a inibição da germinação chegou a 100%, evidenciando o elevado potencial desses microrganismos para aplicação em programas de controle biológico.
Os resultados indicam que esses fungos podem atuar diretamente sobre os escleródios presentes no solo, reduzindo a quantidade de inóculo disponível para iniciar novas infecções nas lavouras. Essa característica representa um avanço significativo no manejo do mofo-branco, uma vez que o controle da doença depende, em grande parte, da redução do patógeno no ambiente.
Além disso, a pesquisa também demonstrou que esses microrganismos podem interferir na produção de substâncias importantes para a virulência do patógeno, como o ácido oxálico. Esse composto desempenha papel fundamental na capacidade de infecção do fungo, contribuindo para a degradação dos tecidos vegetais e a progressão da doença. Ao reduzir a produção dessa substância, os microrganismos antagonistas diminuem a agressividade do patógeno.
Importância da microbiota do solo
Os resultados obtidos nas pesquisas reforçam a importância da biodiversidade microbiana presente no solo. A microbiota do solo desempenha papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas agrícolas e pode influenciar diretamente a ocorrência e a severidade de doenças de plantas.
Solos com elevada diversidade microbiana tendem a apresentar maior capacidade de suprimir patógenos, pois diferentes microrganismos competem por recursos e podem atuar como antagonistas naturais de organismos causadores de doenças. Esse fenômeno, conhecido como supressividade do solo, é considerado um dos pilares da agricultura sustentável.
Práticas agrícolas que favorecem a atividade biológica do solo, como a adição de matéria orgânica, a rotação de culturas e o manejo adequado da fertilidade, podem contribuir para o aumento da população de microrganismos benéficos. Dessa forma, a promoção de solos biologicamente ativos pode funcionar como uma estratégia natural de prevenção de doenças.
Integração do biocontrole ao manejo agrícola
Embora os resultados obtidos em laboratório sejam promissores, a aplicação prática do controle biológico requer a integração dessa estratégia com outras práticas de manejo agrícola. O manejo integrado de doenças considera diferentes abordagens que, quando combinadas, proporcionam maior eficiência no controle de patógenos.
Entre as práticas recomendadas para reduzir a ocorrência do mofo-branco estão a rotação de culturas, especialmente com espécies que não são hospedeiras do patógeno, como gramíneas. Essa prática contribui para reduzir a população do fungo no solo ao interromper seu ciclo de vida.
Outra estratégia importante é o uso de sementes de alta qualidade sanitária, livres de patógenos, bem como a higienização de máquinas e equipamentos agrícolas. Essas medidas ajudam a evitar a introdução e a disseminação do fungo em novas áreas de cultivo.
Além disso, o uso de biofungicidas baseados em microrganismos benéficos pode complementar o manejo químico quando necessário, contribuindo para reduzir a pressão de seleção por resistência em patógenos e minimizar impactos ambientais.
Crescimento do mercado de bioinsumos
O avanço das pesquisas relacionadas ao controle biológico tem impulsionado o crescimento do mercado de bioinsumos agrícolas. Esses produtos incluem biofungicidas, bioinseticidas e outros agentes biológicos utilizados no manejo de pragas e doenças.
No Brasil, o setor de bioinsumos tem apresentado crescimento acelerado nos últimos anos, impulsionado pela busca por sistemas de produção mais sustentáveis e pela necessidade de reduzir a dependência de produtos químicos. Esse cenário também reflete o aumento do interesse de produtores rurais em tecnologias que promovam maior equilíbrio biológico no solo e contribuam para a sustentabilidade da produção agrícola.
A utilização de microrganismos benéficos no manejo de doenças representa uma das principais tendências da agricultura moderna. Além de contribuir para a redução de impactos ambientais, essas tecnologias podem aumentar a resiliência dos sistemas produtivos e melhorar a saúde do solo a longo prazo.
Perspectivas para o futuro da pesquisa
Apesar dos avanços obtidos, ainda existem desafios relacionados à aplicação em larga escala do controle biológico. Entre esses desafios estão a produção massal de microrganismos, o desenvolvimento de formulações estáveis e a adaptação das tecnologias às diferentes condições ambientais encontradas nos sistemas agrícolas.
Pesquisas futuras deverão concentrar esforços na avaliação da eficiência desses microrganismos em condições de campo, bem como na combinação de diferentes espécies ou cepas que possam atuar de forma complementar no controle do patógeno.
Outro aspecto relevante envolve a compreensão mais profunda das interações entre microrganismos, plantas e ambiente. O estudo da microbiologia do solo e das redes ecológicas microbianas pode revelar novos organismos com potencial para o controle de doenças e contribuir para o desenvolvimento de sistemas agrícolas mais equilibrados.
O controle do mofo-branco continua sendo um dos principais desafios fitossanitários para diversas culturas agrícolas. No entanto, os avanços recentes na pesquisa científica demonstram que o uso de microrganismos benéficos do solo pode representar uma alternativa promissora para o manejo dessa doença.
A identificação de fungos capazes de eliminar estruturas de sobrevivência do patógeno evidencia o potencial do controle biológico como ferramenta estratégica dentro do manejo integrado de doenças. Quando combinado com práticas culturais adequadas e com o uso racional de insumos químicos, o biocontrole pode contribuir significativamente para sistemas agrícolas mais sustentáveis e resilientes.
Dessa forma, o fortalecimento da pesquisa em microbiologia do solo e o desenvolvimento de tecnologias baseadas em bioinsumos representam caminhos fundamentais para a construção de uma agricultura moderna, produtiva e ambientalmente responsável.
Referências bibliográficas
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